Com taxa de juros que chega a mais de 400% ao ano, é preciso saber usar o cartão de crédito para não transformá-lo em vilão

Andar pelos corredores dos shoppings, enfrentar placas de promoção nas vitrines, visualizar ofertas de produtos na internet. Pois é, muitas vezes fica difícil se controlar diante das tentações, ainda mais quando contamos com a “mágica” do cartão de crédito, que nos permite fazer a compra mesmo quando não temos o dinheiro em mãos. Porém, é preciso ter muita parcimônia, já que as taxas de cartão de crédito são consideradas as mais altas do mundo, chegando a 439,5% ao ano, segundo dados do Banco Central (BC).

É possível utilizar o cartão de crédito como forma de pagamento sem comprometer as finanças

Claro que você escapará da taxa altíssima se pagar a fatura em dia. Então, para aqueles que são controlados, o cartão se apresenta como um aliado, sendo um ótimo instrumento de compra a crédito, pois dá um prazo de 40 dias, em média, para a efetuação do pagamento. Além disso, especialmente em compras grandes, ele traz a segurança ao consumidor em evitar o uso de dinheiro.

No entanto, o assunto se faz urgente quando pensamos que é raro encontrar, atualmente, alguém que não anda com, pelo menos, um cartão de crédito na carteira – e que tivemos um recorde do saldo devedor do rotativo de cartão de crédito no ano passado que somava R$ 33,122 bilhões no final de junho, por exemplo.

Apesar de exigir consciência e cuidado, é possível, sim, utilizar essa forma de pagamento sem comprometer as finanças. Quer saber como usar o cartão como um aliado e não um vilão? Então fique atento as dicas dos especialistas consultados pelo iG.

1. Seja sincero consigo mesmo
Não adianta, você deve ser sincero na hora de resolver ter ou não ter um cartão de crédito – e mais do que isso, quantos deles vai ter. Você é disciplinado? Recebe o salário em uma parcela ou em duas? Um ou dois cartões podem te atender perfeitamente. Ou você é consumista, tem preguiça de acompanhar o extrato de gastos? Bom, neste caso é melhor pensar (muito bem!) se terá um cartão – e se não é melhor deixá-lo em casa para somente utilizá-lo quando realmente for necessário.

“O ideal é ter um ou dois, no máximo. Também sugiro que a pessoa vá guardando os canhotos do cartão, anotando tudo para saber quanto deve, somado, para não se perder”, explica a planejadora financeira certificada CFP®, Letícia Camargo.

2. De olho no limite 
Essa é uma das dicas mais importantes para qualquer consumidor: fique de olho no limite do cartão – ou cartões! Segundo Letícia, este deve ser em torno de 30 por cento da sua renda. “Assim, se você tem dois cartões, a soma dos dois limites deverá ser trinta por cento, e não cada um”, pontua Letícia.

3. Não atrase o pagamento – e evite o valor mínimo
Segundo o advogado especialista em direitos do consumidor e consultor financeiro, Dori Boucault, o ideal é ter um cartão com data de vencimento próxima à data do pagamento do salário, pois, assim, você pode pagar a fatura assim que cair o salário, evitando a os atrasos. Afinal, pagar a fatura completa e em dia é o melhor dos mundos, certo?

Mas em caso de atraso, há duas saídas mais comuns: pagar o valor mínimo (e entrar no chamado crédito rotativo) ou parcelar a fatura.

Para usar o chamado crédito rotativo no vencimento da fatura, o consumidor deve fazer o pagamento de qualquer valor entre o mínimo e o total. O restante é automaticamente financiado e lançado no mês seguinte, com juros. Porém, de acordo com nossos especialistas, essa é a opção menos indicada. O melhor é fazer o parcelamento do débito da fatura – que têm taxas de juros mais baixas, geralmente, em relação ao pagamento do valor mínimo.

Porém, mesmo com as parcelas, é preciso cuidado. O advogado orienta a observar se o valor não muda de acordo com o mês. “Tente fazer um parcelamento com situações possíveis de serem cumpridas, alongando o pagamento com uma parcela menor, mas olhe bem se esse juro não é abusivo”, avisa Boucault.

Caso isso aconteça, não valerá a pena utilizar a forma parcelada, sendo ainda possível recorrer a linhas de créditos menores. “Procure uma linha de crédito com juros mais baixos, como o crédito consignado, por exemplo. Ele costuma ter juros mais acessíveis e livra o consumidor de pagar os altos do cartão”, explica Letícia.

4. Use dinheiro e débito para controle
Um erro cometido por grande parte dos usuários de cartão de crédito é se tornar totalmente “dependente” dele, ou seja, utilizá-lo para todo e qualquer tipo de compra. Isso não é indicado porque você pode perder o controle, especialmente ao esquecer aquelas pequenas compras.

“Claro, se a pessoa for bem disciplinada e conseguir acompanhar todos os seus gastos, é indiferente se usar dinheiro ou cartão de crédito. Mas, em geral, as pessoas não têm tamanho controle, por isso sugiro que não usem o cartão para compras do dia a dia, preferindo dinheiro ou cartão de débito. Dessa maneira, poderá enxergar melhor quanto tem de dinheiro no banco. Já com o cartão de crédito, pode ter surpresas ao ver a fatura”, explica Letícia Camargo.

5. Compras no exterior, e agora?
Vai viajar e não sabe qual a melhor escolha na hora de sair às compras? Segundo a planejadora financeira Letícia Camargo, quando for possível pagar em moeda, deve-se fazê-lo, uma vez que, atualmente, na compra do papel moeda são cobrados 0,38% de IOF, já no cartão a taxa é de 6,38%, ou seja, muito maior.

“Veja, usar cartão de crédito fora do país pode trazer dois grandes problemas: o primeiro é você gastar um monte, chegar no Brasil e não conseguir pagar. Outra coisa é que você vai pagar a fatura apenas no mês seguinte e, por isso, dependerá do câmbio futuro da moeda desse país. Quanto estará o dólar no outro mês, por exemplo? Só para ilustrar: no ano passado, tivemos mudança de R$ 2,70 para R$ 4. Então, se planejou gastar R$ 500, acabou gastando R$ 1000”, destaca Letícia.

6. Milhas são benefícios, não causas
Já ouviu aquela conversa de que “vai comprar com cartão de crédito só para ganhar milhas?”. Pois é, muita calma nessa hora! Para não cair em uma cilada, o usuário deve enxergar as milhas como um benefício – e não como uma causa da compra. Além disso,
Dori Boucault destaca que se você souber utilizá-las, pode valer a pena, mas é preciso ficar atento a detalhes como data do vencimento, forma de utilização e data de possibilidade de viagem etc. Afinal, para utilizar os pontos, é preciso ter paciência para fazer a conversão das milhas, pois o atendimento pode ser burocrático e demorado.

“Não gaste pensando nas milhas, pois são incertas. Faça bem a conta para ver se não está sendo iludido com a promessa de vantagens”, finaliza.

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